Os métodos por trás do estudo da NESsT para trazer perspectivas locais às discussões de financiamento da bioeconomia

Em junho de 2024, a NESsT lançou uma publicação com o objetivo de melhorar o direcionamento, a acessibilidade, a eficácia e a eficiência dos investimentos na bioeconomia amazônica, baseada em um projeto de pesquisa de um ano realizado com iniciativas lideradas por Povos Indígenas e Comunidades Locais (PICLs). 

Este blog explora a metodologia por trás do estudo, destacando a firme intenção da NESsT de trazer as vozes locais para discussões globais sobre o financiamento da bioeconomia amazônica. Ele examina como a NESsT ancorou a publicação em narrativas autênticas e contextos amazônicos diversos, ao mesmo tempo em que ajustou a mensagem para a comunidade financeira internacional. 

Seleção e entrevistas com dez iniciativas do portfólio NESsT Amazônia para representar pluralidades indígenas e cadeias de valor diversificadas da bioeconomia 

Os Povos Indígenas e as Comunidades Locais desempenham um papel crucial na proteção da biodiversidade amazônica e na promoção do desenvolvimento sustentável por meio de seus empreendimentos bioeconômicos. Ao nos envolvermos profundamente com líderes locais e envolvermos várias partes interessadas para identificar, por meio de suas vozes, os desafios enfrentados por essas iniciativas, buscamos apoiar e inspirar outros investidores focados em impacto a moldar uma bioeconomia que reconheça as soluções eficazes de comunidades tradicionais locais, incluindo grupos indígenas, comunidades ribeirinhas e quilombolas, conserve o meio ambiente biodiverso e melhore os meios de subsistência locais.
— Cairo Bastos, Gerente de Programas, Iniciativa Amazônia Brasil

O portfólio da NESsT na Amazônia consiste em 50 iniciativas bioeconômicas localizados no Brasil, Colômbia, Equador e Peru. Essas iniciativas variam de cooperativas indígenas que apoiam pescadores ao longo do Rio Amazonas a empresas de tecnologia em estágio inicial que oferecem e expandem soluções climáticas na floresta. 

Em 2022 e 2023, a NESsT selecionou e visitou dez iniciativas de seu portfólio na Amazônia para desenvolver uma compreensão mais profunda de suas necessidades de financiamento e dos desafios que enfrentam no dia a dia. 

Os dez casos selecionados são representativos do portfólio geral da NESsT. Todas as iniciativas estudadas são lideradas por PICLs, e 50% são lideradas por mulheres ou têm mulheres em suas equipes de liderança. Todos produzem produtos sustentáveis da bioeconomia e priorizam a conservação da biodiversidade local e a melhoria das vidas dos PICLs na Amazônia. Além disso, essas iniciativas receberam, direta ou indiretamente, financiamento de Instituições de Financiamento ao Desenvolvimento (IFDs), Agências Internacionais de Desenvolvimento (AIDs) e/ou investidores do setor privado. 

Visão geral das dez iniciativas bioeconômicas entrevistadas pela NESsT 

Agrosolidaria Florencia Caquetá (Agrosolidaria)
A Agrosolidaria vende produtos agrícolas e cosméticos feitos de plantas amazônicas cultivadas de forma sustentável. Foi fundada na bacia amazônica colombiana por 12 associações que representam mais de 250 famílias de pequenos agricultores. 

Associação Forestal Indígena de Madre de Dios (AFIMAD)
AFIMAD é uma associação formada por mais de 200 coletores de castanha-do-Pará (Bertholletia excelsa). Ela surgiu como uma solução alternativa à prática insustentável de derrubada indiscriminada de árvores, que era uma fonte de renda para comunidades indígenas locais no passado. 

Associação dos Produtores Rurais de Carauari (ASPROC)
A ASPROC apoia comunidades ribeirinhas locais na produção e venda de produtos biodiversos exclusivamente da floresta, incluindo Pirarucu, farinha de mandioca, borracha natural e açaí. 

Associação dos Agropecuários de Beruri (ASSOAB) 
Desde 1996, a ASSOAB apoia pequenos coletores de castanha-do-Pará em Beruri, Amazonas, gerando renda estável para comunidades isoladas enquanto respeita os meios de subsistência tradicionais e o ambiente. 

Associação dos Trabalhadores Agroextrativistas da Ilha das Cinzas (ATAIC)
ATAIC é uma associação dedicada a gerar e expandir oportunidades de renda para famílias locais, comprando sementes oleaginosas da Amazônia e frutas de extrativistas locais a preços justos, além de oferecer a eles capacitações em produção, educação em sustentabilidade e consultoria de negócios. 

Bioingredientes Amazónikos (BioIncos)
A BioIncos compra frutas silvestres de comunidades indígenas no Piedemonte amazônico da Colômbia e as transforma em óleos naturais para a indústria de cosméticos. 

CooperSapó 
CooperSapó é uma associação comunitária que visa melhorar os meios de subsistência de famílias agricultoras de pequena escala, muitas delas de ascendência indígena. Seu principal produto é a semente de guaraná (Paullinia cupana), um superalimento amazônico conhecido por seus benefícios energéticos. 

Cooperativa Agropecuária dos Produtores Rurais de Meruú (Cooaprime) 
A Cooaprime é uma cooperativa rural no nordeste do estado do Pará dedicada a apoiar e expandir as oportunidades de renda das famílias ribeirinhas ao longo do rio Meruú-açu. A Cooaprime obtém o açaí de 35 famílias fornecedoras e melhora os meios de subsistência de mais de 180 famílias envolvidas na produção, coleta e transporte desse açaí. 

Cooperativa Mista dos Povos e Comunidades Tradicionais da Calha Norte (COOPAFLORA)
A COOPAFLORA foi criada em 2019 para representar famílias coletoras de vários territórios indígenas, quilombolas e colonos da Calha Norte da Amazônia Brasileira. Ela apoia 28 comunidades tradicionais de vilarejos remotos que dependem principalmente da coleta de produtos florestais e da agricultura familiar para geração de renda e subsistência, impactando positivamente mais de 1.200 indivíduos, incluindo os membros da cooperativa e suas famílias, bem como dos fornecedores. 

Kemito Ene 
Kemito Ene é uma cooperativa de produtores de nacionalidade Asháninka, liderada por indígenas, da bacia do rio Ene, dedicada à produção e comercialização sustentável de grãos de cacau orgânicos certificados e de comércio justo, produtos derivados do cacau (como nibs de cacau, pasta de cacau, cacau em pó, entre outros), chocolate e grãos de café torrados e moídos.  

Os gerentes de portfólio da NESsT realizaram entrevistas presenciais com as equipes de liderança, funcionários, pequenos agricultores e produtores, fornecedores e membros da comunidade dessas dez iniciativas de bioeconomia, apoiando mais de 40 pessoas a trazer suas vozes para a publicação. 

Agrosolidaria, Kemito Ene (© Daniel Martínez, WWF Peru); Coopaflora; AFIMAD (© Daniel Martínez, WWF Peru); BioIncos (©Manglar TV/ WWF Colômbia); ASSOAB (©Bruno Kelly); CooperSapó; ASPROC; ATAIC 

Incorporando testemunhos do mundo real nas recomendações direcionadas do NESsT

Ao observar em primeira mão os desafios e oportunidades únicos que as comunidades locais enfrentam, podemos tomar decisões de investimento mais informadas e adaptar nossos serviços de suporte de negócios aos contextos locais. Esses valiosos dados qualitativos forneceram as bases para nossas recomendações direcionadas e fortaleceram nossos esforços para preencher as lacunas de conhecimento e comunicação entre as iniciativas locais de bioeconomia e a comunidade investidora.
— Tiana Lins, Diretora Nacional do Brasil

As visitas de campo detalhadas e as entrevistas semiestruturadas conduzidas pela NESsT foram planejadas para complementar as informações coletadas de cada iniciativa durante o processo de análise e ao longo de sua permanência no portfólio da NESsT. A NESsT monitora e mede o impacto de seu portfólio por meio de sua Ferramenta de Gestão e Medição de Desempenho (PMT) e da mentoria e assistência contínuas. 

Visita de campo da NESsT à Cooaprime 

Aplicando técnicas de escuta ativa, os gerentes de portfólio da NESsT convidaram membros das comunidades para responder a perguntas abertas sobre a história de suas terras, as ameaças cotidianas que enfrentam e dinâmicas sociais e ambientais, incluindo segurança alimentar, papéis de gênero e infraestrutura comunitária. 

Os empreendedores também tiveram espaço para expressar os desafios dos negócios e apresentar soluções concretas baseadas em seu próprio conhecimento e experiência. Essas discussões abordaram práticas de produção sustentável adotadas pelas iniciativas e seus produtores, processos para obtenção de certificações de produção orgânica e de comércio justo, além da acessibilidade e eficácia de crédito e assistências para o negócio. 

Essa abordagem holística para coleta de dados qualitativos baseou-se no trabalho contínuo da NESsT para refinar seus indicadores quantitativos e qualitativos, refletindo melhor as realidades das comunidades locais na Amazônia como parte do consórcio Negócios Alimentares Regenerativos (NAR), uma iniciativa apoiada pelo Centro Internacional de Investigações para o Desenvolvimento (CRDI). 

Imagem: Exemplos de questões-chave e temas explorados pela NESsT com empresas da bioeconomia e membros da comunidade

As informações coletadas foram categorizadas e agrupadas em temas mais amplos para revelar padrões e tópicos recorrentes em diversas geografias, cadeias de suprimento e setores dentro da bioeconomia amazônica. 

Colaborando com a comunidade de financiadores para transformar insights de campo em oportunidades estratégicas conjuntas 

Formar colaborações estratégicas com stakeholders globais de financiamento é essencial para nutrir um ambiente de apoio ao financiamento na região amazônica. Por meio dessas alianças, estamos aproveitando observações feitas em campo para moldar oportunidades que enfrentem desafios urgentes e impulsionem o crescimento de empresas locais ambientalmente conscientes, trazendo produtos amazônicos para os mercados locais e melhorando os meios de subsistência das comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas.
— Kirsten Dueck, CEO da NESsT

Paralelamente, a equipe da NESsT conduziu entrevistas com 12 stakeholders chave do setor de financiamento para o desenvolvimento, a fim de obter uma compreensão mais clara dos obstáculos enfrentados pelo setor financeiro ao canalizar recursos para a bioeconomia amazônica. Realizadas em parceria com a firma de consultoria estratégica Global Counsel, essas entrevistas destacaram a importância de adotar estratégias direcionadas para promover a bioeconomia de maneira eficaz e sustentável na região. 

Em seguida, a NESsT apresentou suas descobertas consolidadas e sistematizadas a um Comitê Consultivo de Bioeconomia, formado por representantes da NESsT, Instituições Financeiras de Desenvolvimento (DFIs), Agências Internacionais de Desenvolvimento (IDAs) e organizações internacionais. Essas reuniões foram projetadas para analisar as descobertas das comunidades locais e do setor financeiro, traduzindo-as em etapas acionáveis para a comunidade de financiamento, particularmente para as DFIs. 

A NESsT identificou nove oportunidades para melhorar o financiamento da bioeconomia em duas áreas principais que abordam nossa questão inicial da pesquisa sobre como aumentar a eficácia do financiamento para a bioeconomia amazônica: cinco oportunidades para DFIs e IDAs criarem condições favoráveis para promover o empreendedorismo na Pan-Amazônia e quatro oportunidades para DFIs e IDAs colaborarem com atores locais comprometidos com empresas e comunidades, melhorando os resultados de impacto. 

A imagem abaixo captura essa estratégia detalhadamente: a seção superior mostra a estreita colaboração da NESsT com a comunidade financeira, enquanto a seção inferior foca na pesquisa baseada em comunidades e coleta de dados. A seta central representa a estratégia de longo prazo da NESsT para ampliar o alcance das nove recomendações. 

Imagem criada por Cairo Bastos, Gerente de Programa, Iniciativa Brasil Amazônia

Estudo de Caso NESsT: A jornada de 14 anos da ATAIC na construção de infraestrutura sustentável na Ilha das Cinzas 

A Ilha das Cinzas, situada na foz do Rio Amazonas, no Pará, Brasil, abriga uma vibrante comunidade de extrativistas e pescadores ribeirinhos. Liderada por moradores locais, a Associação dos Trabalhadores Agroextrativistas da Ilha das Cinzas (ATAIC) tem trabalhado para construir cadeias de valor sustentáveis, fortalecer meios de subsistência locais e melhorar o acesso a infraestrutura básica na ilha por mais de 14 anos. 

Visita de campo da NESsT à ATAIC

Acessível apenas por alguns trajetos fluviais, a Ilha das Cinzas oferece recursos limitados de subsistência, incluindo água potável, assistência médica, tratamento de esgoto e eletricidade. Nas últimas décadas, a ATAIC tem se dedicado a estabelecer sistemas locais sustentáveis e fortalecer meios de subsistência tradicionais. 

Conversas com famílias locais revelaram o impacto de uma infraestrutura precária na insegurança alimentar, devido à redução da diversidade produtiva nas áreas de coleta, o que dificultava a alimentação das famílias. A pluriatividade nas várzeas é essencial para complementar a renda familiar, garantir diversificação alimentar e sustentar a fertilidade do solo. 

Em 2020, a ATAIC instalou painéis de energia solar nas casas de 60 famílias ribeirinhas da região. Esses painéis captam energia para carregar baterias, que, por sua vez, alimentam televisores, lâmpadas e ventiladores nas residências. A ATAIC também capacitou jovens e adultos para utilizar os painéis, garantindo habilidades necessárias para sua manutenção ao longo do tempo. 

Os produtores locais que vendem seus produtos amazônicos para a ATAIC utilizam as baterias movidas a energia solar para alimentar despolpadores de frutas. Isso permite que ofereçam produtos com maior valor agregado, em vez de frutas in natura, gerando maior renda. 

“Depois que instalamos os painéis solares, a comunidade começou a ver outras formas de ganhar dinheiro. Agora que temos mais eletricidade, poderemos usar frutas para fazer polpas e vendê-las”, compartilhou um membro da ATAIC. 

Visita de campo da NESsT à ATAIC

Outro membro comentou: “[Podemos] deixar o freezer ligado e usá-lo para conservar polpa para consumo e para venda”. 

A análise detalhada de nossas entrevistas com membros da comunidade ATAIC revelou o papel significativo das iniciativas de bioeconomia na condução e implementação de projetos de infraestrutura sustentáveis e ambientalmente adequados na bacia amazônica, particularmente em áreas remotas. Recursos como eletricidade, água potável e infraestrutura rodoviária são cruciais não apenas para melhorar os padrões de vida e a segurança alimentar, mas também para impulsionar e diversificar a produção local de forma sustentável.

Com base nessas informações, identificamos uma oportunidade clara para as IFDs e IDAs investirem em iniciativas de infraestrutura local. Especificamente, a oportunidade número quatro descreve as maneiras pelas quais os investidores podem melhorar o desenvolvimento sustentável baseado na comunidade para agregar valor aos produtos comunitários, desbloquear novas oportunidades de inovação e melhorar os meios de subsistência locais. 

Próximos passos da NESsT para continuar a fortalecer o alcance das vozes, perspectivas e soluções das comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas em todo o ecossistema financeiro global 

À medida que avançamos em nossa estratégia para moldar uma bioeconomia centrada nos PICLs, a NESsT está focada em ampliar o impacto de suas recomendações de financiamento para alcançar uma audiência mais diversificada e o público em geral por meio de eventos, redes e fóruns. Especificamente, ao se envolver em plataformas globais como a COP16 Colômbia, junto com empreendedores do portfólio NESsT e membros das comunidades, a organização promoverá interações significativas entre financiadores e atores locais. 

Por meio de discussões direcionadas e espaços co-criados com representantes de iniciativas da bioeconomia e setor financeiro, a NESsT visa avaliar o alinhamento de suas recomendações com as políticas de financiamento e as realidades locais em evolução. Envolver líderes comunitários nessas discussões garantirá que eles possam contribuir e se beneficiar de debates sobre um ambiente de financiamento mais inclusivo e sustentável para a Amazônia. 

Você pode acessar o estudo e recomendações detalhadas da NESsT abaixo em português, inglês e espanhol: 

Mantenha-se atualizado sobre nosso trabalho para fortalecer o alcance das vozes dos Povos Indígenas e das comunidades locais inscrevendo-se no Boletim Informativo NESsT e seguindo a NESsT no LinkedIn e no Instagram.  


Este blog faz parte de uma série que explora os insights, temas-chave e abordagens que norteiam a publicação da NESsT: Desbloqueando o potencial do ecossistema global de financiamento para investir em uma bioeconomia amazônica sustentável através da lente das comunidades locais. Baseado em vozes amazônicas e conversas com o setor financeiro global, o relatório identifica nove recomendações em duas áreas principais para que investidores públicos e privados focados em impacto possam melhorar o direcionamento, eficácia e eficiência de seus financiamentos para a bioeconomia da Amazônia. Com esta série de dez partes, buscamos trazer essas oportunidades para conversas mais amplas e espaços de discussão diversificados, ampliando o alcance das comunidades amazônicas e suas vozes, experiências e soluções.